terça-feira, 26 de dezembro de 2006

David e Golias


Desde que me conheço que sou criança. Cresço apenas quando empurrado pela vida e só na medida certa para conseguir lidar com o que se demonstra diferente do conto que criei enquanto aprendia a caminhar. Infelizmente, este Natal fez-me crescer mais um bom bocado. Fundiu-se a luzinha vermelha no nariz do Rudolfo. Sem ela, o caminho ficou mais escuro e o jogo de luzes esbateu-se para um quadro grayscale de 8 bits por canal.
Recorro à memória para trazer à tona sensações que me devolvam aquele olhar vivo e cintilante como quando me deitava mesmo por baixo da árvore de natal decorada com mil cores, artefactos e outras tantas luzes. Aí ficava horas, com luzes apagadas, portas fechadas e persianas totalmente corridas, admirando cada ramo decorado, sentindo o cheiro a resina, alterando com a imaginação cada sombra que se projectava no tecto e nas paredes que iam e vinham tal como uma projecção de slides de uma qualquer história fantástica com o já tão certo final feliz que as caracterizam. Era com este espectáculo que me conseguia conter de modo a não abrir qualquer presente até às 00h01 do dia 25 de Dezembro. Para mim, a magia do Natal não começava nessa meia-noite. Para mim, essa era a meia-noite em que acabavam os momentos debaixo da árvore, rodeado de embrulhos, luzes, e pensamentos de pura magia. Essa era a meia-noite em que algumas agulhas já começavam a cair lá do alto e se iam juntar ao algodão que ladeava o pequeno presépio de louça e barro. Os embrulhos serviriam para atenuar essa sensação de que mais um período mágico passava. Era a compensação, a troca do fantástico pelo material.
Neste Natal, senti que perdi qualquer coisa de mim. Vi-o de uma forma muito diferente. Vi-o como tenho visto a vida nestes últimos anos. Como algo de passagem, sem grandes sentidos nem significados mas que nos empardece por fora e nos dilui por dentro.
Contudo, certos instantes param-nos no tempo, abrilhantam-nos os olhos e aquecem-nos a pequena alma de criança que ainda temos em nós. São estes pequenos momentos “Davides” que derrotam o grande “Golias” de todo o resto da nossa vida. São momentos sonhadores, que nos dão força para acreditarmos que ainda vamos a tempo de reverter este processo de maturação…chamemos-lhe correctamente pelo nome…de envelhecimento. Quero ser criança, todo eu. Quero morrer ainda criança, sem mais nada de velho que não seja a pele que me reveste e uns cabelos branco-neve. Criança, no olhar, no sonhar e no sentir. Em tudo o que significa ser, existir, viver…até já não poder ser.

1 comentário:

Anónimo disse...

Quero comentar este texto carregado de emoções e verdades, mas não tenho palavras para o fazer...resta-me dizer: obrigada por partilhares....
Bida